home    
   
    web / portfolio    
   
    bio / CV    
   
    personal work     
   
    contributors    
   
    links    
   
    contact    
   

Uma jacuzzi para Leocádia


Por Maitê Mendonça

Ela era uma guria do interior. Morava numa casa de três cômodos e banheiro. Dezessete anos. Muitos sonhos na cabeça. E cada vez que via a pequena banheira do irmão mais novo, a idéia de que um dia poderia mergulhar numa grande jacuzzi aflorava. Igual a da novela. Voltava a se entreter com o menino. Ele era a realidade. Precisava terminar seus afazeres e tomar seu banho para ir à escola, onde cursava o segundo ano do Ensino Médio.
O chuveiro era antigo, entupido. Era necessário procurar pelas poucas gotas que caiam. Leocádia tinha mais um motivo para sonhar com sua banheira.
Aprontou-se e foi apressada para o ponto de ônibus. A escola ficava longe. Para passar o tempo batia um papo com a amiga:
- Estou cansada dessa vida de chuveiro conta-gota. Queria mesmo era uma banheira jacuzzi, espaçosa e borbulhante.
Escutando todo o relato e sempre procurando uma vítima para sua lista estava o Zé. Criatura conhecida. Só pensava em se aproveitar das meninas e depois sempre caia fora.
Interrompeu o papo das garotas e viu Leocádia, a sua mais nova meta:
- Sabe, eu tenho uma jacuzzi onde trabalho.
A mocinha passou a dar um pouco de atenção, enquanto a amiga se fez pouco interessada.
- Ah é? respondeu Leocádia. E continuou. Onde você trabalha?
- Sou camareiro de um hotel. Se você quiser me acompanhar, te levo para conhecer. Prometo. Todo mundo sabe. Sou confiável.
A amiga olhou apavorada para o rosto de Leocádia, que parecia se sentir tentada a entrar no papo do conquistador.
- Só se for agora. To indo pra lá mesmo, continuou Zé.
Mesmo com os protestos da amiga, que a chamou para um canto e pediu:
- Menina, ele é o maior sem-vergonha do bairro.
A sonhadora já tinha tomado a decisão. Só conseguia pensar no momento que estaria frente a frente com a sua jacuzzi.
O ônibus se aproximou. Ela entrou acompanhada de Zé. Ainda conseguiu ouvir os últimos apelos da amiga:
- Você vai se arrepender. Volte aqui.
Sentou ao lado de Zé, que parecia ser um bom moço. Ele iria lhe ajudar a realizar seu sonho. Desceram do ônibus, próximo à rodoviária. Andaram muitas quadras até chegarem ao destino.
Um motel de quinta categoria. Ele já era conhecido pelo porteiro. Os dois mantinham um trato. Ele mentia para a convidada e garantia que trabalhava ali e o porteiro confirmava, depois de receber um dinheiro por fora.
Depois de uma breve espera na sala de estar, Leocádia começava a acreditar na amiga. Poderia mesmo ter sido enganada. Aquele ambiente tinha um cheiro forte de umidade.
O sofá estava coberto de manchas. Leocádia pensou que seria impossível encontrar uma banheira naquele ambiente imundo.
Nisso chegou Zé:
- Vamos, disse Zé. A jacuzzi está na parte nova, lá atrás. Você olha e depois pega o ônibus de volta.
Ela concordou e foi caminhando com ele pelo longo corredor de parquet, que parecia ser cheio de cupins.
Abriu a porta do quarto 25. Leocádia entrou primeiro. Pode ver o rosto de Zé mudar no reflexo do espelho.
Virou-se imediatamente para ele e disse: - aqui não tem jacuzzi, não é?
Zé fez sinal positivo com a cabeça.
Leocádia admirou-se com sua burrice, ao mesmo tempo em que Zé partia com tudo para cima dela.
Ela conseguiu se esquivar e correu para o banheiro. Deparou-se com um chuveiro tão velho quanto o de sua casa e uma banheira cheia de limo.
Zé veio correndo e agarrou por traz.
Leocádia se debatia tanto que fez com que o agressor fosse contra um cravo pregado na parede, que servia de porta-toalhas.
Ele teve as costas perfuradas pelo objeto pontiagudo. Quanto mais se mexia, mais era invadido pelo objeto estranho.
Leocádia correu dali, enquanto Zé gritava. Antes de sair do quarto viu a carteira dele dentro do casaco. Pegou o dinheiro, enquanto o dono da espelunca batia na porta. Leocádia abriu a porta e afirmou ir buscar ajuda:
- Tome conta dele enquanto busco alguém para retira-lo daí.
Atravessou o corredor, ganhou a rua. Correu até o ponto de táxi. Pediu uma corrida até o Hotel Miramar. Contou o dinheiro. Tinha cerca de 200,00 reais.
Desceu no bairro chique. Entrou no hotel. Pediu um quarto com uma banheira de hidromassagem.
Acompanhada pelo recepcionista adentrou o corredor iluminado. Abriu a porta do quarto que, custava 150,00 reais.
Agradeceu, fechou a porta. Correu até o banheiro. Ficou frente a frente com a jacuzzi. Ligou. As borbulhas foram intensificadas por sais de banho.
Quando entrou, ficou perdida em meio a tanta espuma. Assoprava com uma das mãos.
As bolhas voavam. Em nenhum momento pensou em Zé, que naquele instante ainda agonizava junto à parede. Era o seu minuto de glória. Finalmente tinha uma jacuzzi.